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eu não soube ficar por aqui. quis me mudar mas nem soube desencaixotar as coisas. fiquei num amontoado, sem saber o que dizer.
vou voltar pra minha caixinha. que lá me sinto mais acolhida. em casa.
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não sei o que fazer com o excesso que é o meu dedo mindinho.
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Andávamos pelas ruas largas corredores, esvaziadas pelo último capítulo da novela, acompanhados por uma brisa cansada dessas que só em perto do mar. Mas me tomou súbita uma tristeza de que eu não soube medir tamanho. E no bairro do Leblon às quinze para as nove da noite, um pouco afastada e com os braços já cruzados, numa caminhada quase inerte sem a pretensão de um destino, tive de reter os acontecimentos nos meus olhos para que eu então não chorasse. Meus passos se distinguiam largos mas a cada um eu sentia puxar como que um fio fino no fundo dos meus pulmões. E à medida em que eu as percorria, minha tristeza fez preencher-me as esquinas e as avenidas e as bancas de jornal, as varandas chiques e a brisa e as lojas fechando. Tornei tudo parte, pedaço, com consistência tamanha que desmanchando-se pouco depois do momento em que eu já não alcançava mais com o olhar. Percorri a dimensão louca dos meus segredos, desejos, que me invadiram então imensos e devoradores porque sem nomes. Atravessada por todos os monstrinhos da existência eu não entendia como era possível a constância do meu andar e a única vez em que não me surpreendi foi quando por pouco tropecei. Além disso eu carregava a falta de horas bem dormidas da noite anterior, embaçando assim a tristeza emergente com uma névoa fria de quem tem sono. Nosso movimento se estendia indefinidamente: a amplitude de tudo aquilo mudava de forma e continuava a mesma até o momento em que não agüentei e pedi, simulando uma voz distraída, para que começássemos a nos reaproximar do carro de que até então nos distanciávamos. A resposta: pela praia. Pela praia. E tomando a direita na transversal mais próxima, em poucos passos surgiu no meio da minha noite triste e enorme o mar. Encarei-o assustada porque a princípio só soube distinguir o branco da espuma das ondas, e só aos poucos é que pude dar forma a tudo aquilo. Não foi preciso muito para que eu percebesse que o que então se formava diante de mim era de uma natureza abismalmente diferente daquela da minha tristeza, e mesmo que eu talvez até tenha tentado, não pude transferir nem minimamente qualquer coisa minha para o mar. Apenas vi: o mar estava muito bravo e as ondas faziam-se muito altas, fortes; enrolavam-se para dentro de si mesmas, agarravam-se, desapareciam. Tive medo do mar e continuei a olhá-lo. Esvaziei-me diante do mar como as ruas diante do último capítulo da novela. Perdi os sentimentos tão precisamente certos que me preencheram (quase os vi arrastando-se pela areia, mas isso já é mentira). Entreguei-me ao mar. Agradeci ao mar. Deixei.
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sim.
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vivre sa vie, godard
nana dança.
é tão absurdo estar viva numa sala em que homens feitos jogam sinuca e conversam sentados à mesa que nana dança.
e, no fim, suspira e coça o nariz.
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depois de muito tempo sem acordar cedo, é sempre aterrador levantar e constatar estupefata que a manhã aconteceu durante todo esse tempo, sem mim. enquanto eu dormia todo um mundo inteiro se desenrolava lá fora sem no entanto me alcançar; uma quantidade incansável de carros nas ruas (para onde estão indo?), o céu aberto e o sol já ardente, as pessoas andando sem nem mesmo estranhar o cedo da hora e o começo do dia. tudo isso bem distribuído e precisamente no lugar em que está: ando sobre esse chão sentindo-me errada e estrangeira em meio ao todo que sabe tanto onde está. onde estou? piso e o chão costuma resistir aos meus pés – como? apesar da resistência, não sei se existo (tinha me esquecido da existência tão possível e exata desse horário do dia) e preciso repetir-me diversas vezes que estou aqui para então estar.
estão me chamando lá na frente, preciso ir – é preciso estar na aula em que certamente estarei: tudo indica que no momento em que eu chegar lá, não ocuparei mais absolutamente nenhum lugar no espaço além daquele oferecido pela cadeira dura em que me sentarei.
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“119. Os resultados da filosofia consistem na descoberta de um simples absurdo qualquer e nas contusões que o entendimento recebeu ao correr de encontro às fronteiras da linguagem. Elas, as contusões, nos permitem reconhecer o valor dessa descoberta.”
Wittgenstein
então sonhei que, para conhecer a filosofia, é preciso literalmente caminhar por toda a sua história. para isso, pisa-se nas cabeças dos filósofos, todos desde Platão. encontram-se todos enfileirados em ordem cronológica, de cima para baixo, como numa escada: o segundo um pouco mais abaixo do primeiro, o terceiro um pouco mais abaixo do segundo, e assim por diante. Platão é o primeiro degrau. para descer a escada, sobe-se primeiramente na cabeça de Platão, com o cuidado de não fazer peso, pois isso o faria quebrar o pescoço: é preciso sustentar o próprio peso, e pisar apenas simbolicamente sobre as cabeças dos filósofos. para tanto, é construído um corrimão para axilas, em que o sujeito se pendura para descer a escada. o problema reside em passar da cabeça de um filósofo para a de outro sem que seja feita qualquer força sobre elas. são desenhadas diversas possibilidades de corrimão, na tentativa de que o sujeito possa sustentar-se absolutamente em todos os movimentos, sem nunca forçar as cabeças abaixo de seus pés, para que não se quebre nenhum pescoço. mas como a passagem de uma cabeça para outra, na descida, implica sempre em uma queda, parece não haver solução possível: o sujeito acabará sempre por forçar, de alguma maneira, a cabeça do filosófo seguinte. não há, pois, como conhecer a filosofia.
o segundo sonho consiste em um homem que está deitado com as duas pernas para cima, na vertical, apoiadas numa parede. todo o conhecimento da história da filosofia está em suas pernas. Platão, ou o que se sabe dele, está em seus dedos dos pés. seguindo para baixo, nos peitos dos pés está Aristóteles, e assim por diante até a filosofia contemporânea, que se encontra nas virilhas. o problema, também sem solução, está em como esse homem irá andar, pois a sua virilha coloca em queda seus dedos dos pés. como é a virilha que começa o passo e são os dedos dos pés que o terminam, é impossível andar, já que o início do passo coloca em queda o final (talvez fosse mais fácil se fosse o contrário). mesmo de muletas, esse homem está condenado a não andar.
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“(…) Mas agora acontece que o homem-menino não é um cavalheiro mas um cronópio que não entende bem o sistema de linhas de fuga graças às quais se cria uma perspectiva satisfatória dessa circunstância, ou então, como acontece nas colagens mal resolvidas, sente-se uma escala diferente com relação à da circunstância, uma formiga que não cabe num palácio ou um número quatro em que não cabem mais do que três ou cinco unidades. A mim isto me acontece palpavelmente, às vezes sou maior do que o cavalo em que monto, e outros dias caio em um dos meus sapatos e me dou um golpe terrível, sem contar o trabalho para sair, as escadas fabricadas laço a laço com os cordões e a terrível descoberta, já na margem, de que alguém guardou o sapato num guarda-roupa e que estou pior do que Edmundo Dantés no castelo de If porque nem sequer há um abade à disposição nos guarda-roupas de minha casa. (…)”
Júlio Cortázar, O sentimento de não estar de todo
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tenho pensado longamente sobre o verbo esperar. a palavra às vezes me escapa da boca, sem que eu a tenha percebido antes, simplesmente porque ela tem ecoado na minha cabeça, ocupando quase o lugar de pano-de-fundo do meu pensamento. posso atribuir diversos motivos à resistência inesperada dessa palavra, mas prefiro não pensar neles, mantendo-a meio descabida em mim. esperar, segundo guimarães rosa, é reconhecer-se incompleto.
na semana passada, comecei e terminei de ler a fera na selva, de henry james. o livro me atravessou inesperadamente, e tenho passado os últimos dias absorvendo-o. porque ele caiu nas minhas mãos para engrossar essa palavra, esperar, que tem me atormentado. a coincidência desse livro nesse momento trouxe um deslocamento súbito: do pano-de-fundo, a palavra veio para a minha frente.
john marcher, o protagonista, é um homem cuja realidade é de espera. ele sabe que uma fera desconhecida o espreita, que ela sempre esteve espreitando-o, e que a qualquer momento pode atacá-lo. essa convicção é tão segura que, mesmo sem sinal algum da fera, mesmo sem saber quem é ela, o que é, ou como, marcher a espera. porque o bote terrível que um dia virá, ainda que fatal (ou por ser fatal), conferirá à sua vida – à sua espera – o sentido final que ele não procura, já que sabe que existe e que irá até ele.
eu me percebi, a princípio, numa posição semelhante à de marcher, quando lia o livro. como receptora passiva do texto, eu também esperava pela fera que dá título a ele. algum ponto de virada. e foi preciso passar por toda a vida de john marcher para que, junto com ele, eu tivesse a epifania final, e entendesse a ocorrência obscura da fera, que veio sem que a tenhamos percebido. só depois que eu terminei o livro, então fora da vida de marcher, pude perceber a dimensão daquilo que tinha me acontecido.
não sou nem fui receptora passiva, como me senti enquanto lia. essa ilusão de passividade acontece porque sei que o livro já existe e é anterior a mim: no momento em que ele cai nas minhas mãos, aparentemente um texto pronto me é apresentado e o que posso fazer é lê-lo, do jeito como ele está. mas só depois de lê-lo todo que pude me lembrar de coisas das quais eu costumo fazer força para nunca esquecer. o livro não acontece sem mim. sou eu que vou até o livro, eu que o abro e eu que dou vida àquelas letras que, sem o meu olhar sobre elas, tornam-se vazias e mortas. sou ativa, leio e assim faço o texto. porque li a fera na selva, que fala justamente sobre a ilusão de espera passiva das coisas externas, me lembrei de que não recebo o livro, é ele que me recebe. se me coloco passiva, então assumo a realidade que john marcher assumia: espero.
não: eu, leitora, pessoa, viva, sou a fera que espreita. a marcher custou toda uma vida e a vida de uma companheira para que ele então entendesse que a fera se consumia dentro dele. como pensava que ela estava fora, não reconheceu a si mesmo e deixou que a fera se desfizesse sem ele. restou. eu entendi que não posso, nem devo, nem quero, esperar pelo mundo: é ele quem deve me esperar.
absurdamente, eu estou viva. e feroz.
